Revelaste aos pequeninos
Leituras: Jó 42,1-3.5-6.12-16 · Sl 118(119) · Lc 10,17-24 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos."Lucas 10,21 — tradução da CNBB
O fio das leituras
As duas leituras são independentes e terminam, cada uma, num verbo de ver. Jó, no fim do livro, confessa: "Conhecia o Senhor apenas por ouvir falar, mas, agora, eu o vejo com meus olhos". No Evangelho, Jesus diz aos discípulos: "Felizes os olhos que veem o que vós vedes!" A semana começou com Jó perdendo tudo; termina com ele vendo o que antes só conhecia de ouvir.
O texto por dentro
Os setenta e dois voltam da missão eufóricos: "Senhor, até os demônios nos obedeceram por causa do teu nome". Jesus responde com uma frase enigmática — "Eu vi Satanás cair do céu, como um relâmpago" — e os estudiosos discutem o que ela significa exatamente: se é uma visão da derrota do mal acontecendo naquela missão, ou uma alusão a uma queda mais antiga. A Igreja não definiu a questão; o sentido de fundo é claro: o poder do mal está quebrado.
E logo vem a correção: "não vos alegreis porque os espíritos vos obedecem. Antes, ficai alegres porque vossos nomes estão escritos no céu". O sucesso não é o motivo da alegria. Então o próprio Jesus exulta no Espírito Santo e reza em voz alta. E diz a frase que soa mais dura para quem estudou: "Ninguém conhece quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar". Não é desprezo pela inteligência; é que Deus não se deixa conhecer como se conquista um diploma. O último versículo fecha com os profetas e reis que "quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver".
O final de Jó merece uma palavra. Jó se retrata "no pó e na cinza", e Deus o abençoa "mais do que no princípio". Isso não é a moral do "quem é bom é recompensado": pouco antes, na parte que a liturgia não lê hoje, Deus repreende exatamente os amigos que pensavam assim, e dá razão a Jó (Jó 42,7). O livro termina em dom, não em pagamento.
A palavra no original
A CNBB traduz "pequeninos". No grego, nḗpios é a criança pequena, e o dicionário registra o uso figurado, desde Homero: o ingênuo, o tolo, o que não tem juízo. Não é uma palavra elogiosa. Jesus poderia ter dito "os humildes" ou "os simples"; escolheu a palavra que, na boca de um grego culto, soava quase como insulto. É a esses — aos que não sabem se defender com argumentos — que o Pai revelou o que os sábios não viram.
Como os Padres leram
Santo Irineu de Lyon, no século II, escreveu contra os gnósticos, que usavam este mesmo versículo para dizer que o Deus verdadeiro fora desconhecido até a vinda de Cristo e que o Deus dos profetas era outro. Ele observa que Jesus não disse que Deus é impossível de conhecer, mas que ninguém o conhece sem ser ensinado por Deus: "Deus não pode ser conhecido sem Deus" (tradução livre, Contra as Heresias, IV, 6, 4). E, pouco antes, a frase que resume o Evangelho de hoje: "a manifestação do Filho é o conhecimento do Pai" (tradução livre, IV, 6, 3).
Doutor e Catecismo
Santo Agostinho, que então estudava retórica, conta nas Confissões a primeira vez que abriu a Bíblia a sério. Achou o estilo pobre, indigno de ser comparado a Cícero. E dá o diagnóstico de si mesmo com uma frase que parece escrita para este Evangelho: "eu desdenhava ser pequeno e, inchado de orgulho, julgava-me grande" (tradução livre, Confissões, III, 5, 9). Os livros eram, diz ele, humildes na entrada e sublimes para quem avança — e ele não quis entrar abaixando a cabeça.
O Catecismo lê esta oração de Jesus como uma das duas que os Evangelhos guardam do seu ministério, e diz que ela começa em ação de graças: Jesus bendiz o Pai "por ter escondido os mistérios do Reino aos que se julgavam sábios e os ter revelado aos ‘pequeninos’ (os pobres das bem-aventuranças)" (Catecismo, n. 2603, edição portuguesa).
Santo do dia
Santos André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, Mateus Moreira e companheiros, mártires
São os protomártires do Brasil, cuja memória a Igreja no Brasil celebra hoje. Em 1645, no contexto da ocupação holandesa do Nordeste, houve dois massacres no Rio Grande do Norte. O primeiro, segundo os relatos históricos, em 16 de julho, durante a Missa de domingo na capela de Nossa Senhora das Candeias, no Engenho Cunhaú: depois da elevação, as portas foram fechadas e os fiéis mortos, com o padre André de Soveral. O segundo, em 3 de outubro, às margens do rio Uruaçu, onde morreram o padre Ambrósio Francisco Ferro e o leigo Mateus Moreira, entre muitos outros. Os relatos dizem que lhes foi oferecido trocar de fé, e que escolheram morrer; de Mateus Moreira se conta que, ao lhe arrancarem o coração, exclamou: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento". Havia famílias inteiras, com crianças pequenas. Foram beatificados por João Paulo II em 2000 e canonizados por Francisco em 15 de outubro de 2017: os dois sacerdotes e vinte e oito leigos, além de muitos cujos nomes se perderam.
Os mártires de hoje eram, quase todos, gente simples: lavradores, famílias, um sacristão. Foram eles que viram o que muitos sábios não viram. Na comunhão deste fim de semana — ou numa visita ao Santíssimo —, repita em silêncio a frase de Mateus Moreira. E reze pela unidade dos cristãos: o martírio não é argumento contra ninguém, é testemunho a favor de Alguém.
Fontes e verificação
- EscrituraLc 10,17-24; Jó 42,5-6.12: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (memória dos Santos André de Soveral, Ambrósio Francisco Ferro, presbíteros, Mateus Moreira e companheiros, mártires, cor vermelha, 26ª semana do Tempo Comum), conferido em 26/09/2026. Jó 42,7 não integra a leitura de hoje e entra como remissão, sem citação verbatim.
- MagistérioCIC 2603: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 26/09/2026; a nota 51 publicada na página remete a Mt 11,25-27 e Lc 10,21-22. As aspas angulares foram convertidas em aspas retas, e a citação dentro de citação, em aspas simples.
- PatrísticaIreneu de Lyon, Adversus haereses IV, 6, 3-4: texto integral em newadvent.org (ANF 1); tradução livre do inglês.
- DoutorAgostinho de Hipona, Confissões, livro III, cap. 5, § 9: texto integral em newadvent.org (NPNF I/1); tradução livre do inglês.
- Léxiconḗpios: LSJ, s.v. νήπιος ("infant, child"; II, metaf., "childish, silly", "without foresight"), conferido no Perseus (LSJ integral) em 26/09/2026; texto grego de Lc 10,21 (νηπίοις) conferido no SBLGNT.
- SantoVatican News, "Caminho dos Santos Mártires do Brasil" (2021), que traz o relato histórico dos dois massacres, a data da memória no Brasil e a exclamação atribuída a Mateus Moreira; João Paulo II, saudação aos peregrinos da beatificação (6/03/2000), que menciona as famílias com crianças; Francisco, homilia da canonização (15/10/2017). A página "santo do dia" da Vatican News em português não traz esta memória, que é do calendário próprio do Brasil; a celebração é nomeada pela CNBB e atestada pelo artigo de 2021.
- ImagemAlbrecht Dürer, Revelation of St. John: St. Michael fighting the Dragon, 1511 (data da ficha), xilogravura. The Cleveland Museum of Art, 1922.94.13 · CC0 — https://www.clevelandart.org/art/1922.94.13 (licença CC0 conferida na API oficial do museu em 26/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem corte nem retoque).