Os seus anjos nos céus
Leituras próprias: Ex 23,20-23 · Sl 90(91) · Mt 18,1-5.10 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus."Mateus 18,10 — tradução da CNBB
O fio das leituras
Hoje as leituras são próprias da memória, escolhidas para se falarem. No Êxodo, Deus promete ao povo: "Vou enviar um anjo que vá à tua frente, que te guarde pelo caminho e te conduza ao lugar que te preparei". O salmo canta a mesma promessa: "o Senhor deu uma ordem a seus anjos para em todos os caminhos te guardarem". E no Evangelho Jesus diz que os pequeninos têm, no céu, anjos que não tiram os olhos de Deus. Um anjo à frente no caminho, um anjo diante da face do Pai.
O texto por dentro
A cena é parente próxima da de segunda-feira, em Lucas. Os discípulos perguntam: "Quem é o maior no Reino dos Céus?" Jesus chama uma criança, põe no meio deles e vai mais longe do que em Lucas: "se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus". Não é elogio da ingenuidade; a criança não tinha posição a defender nem mérito a exibir. Tornar-se criança é aceitar não ter crédito próprio diante de Deus.
A liturgia salta os versículos 6 a 9, que são dos mais duros de Mateus: a advertência contra quem faz cair um desses pequeninos. E retoma no versículo 10, o último da leitura: não desprezeis nenhum deles, porque os seus anjos veem a face do Pai. É o fundamento bíblico mais direto da fé nos anjos da guarda.
A primeira leitura também tem o seu verso duro: "e eu os exterminarei", dito dos povos de Canaã. É linguagem de guerra antiga, e não se deve fingir que não está lá. Bento XVI tratou dessas "páginas obscuras": a revelação "adapta-se ao nível cultural e moral de épocas antigas", e estas passagens devem ser lidas no seu contexto e à luz de Cristo (Verbum Domini, 42). O que o texto afirma, e continua valendo, é outra coisa: Deus não deixa o seu povo caminhar sozinho.
A palavra no original
É o verbo de "não desprezeis". Literalmente, é "pensar para baixo": olhar alguém de cima, achar que não conta. O dicionário dá como primeiro sentido "olhar de cima para baixo" e "fazer pouco" de alguém. Repare no contraste que Jesus monta dentro do mesmo versículo: nós olhamos de cima para os pequenos; os anjos deles olham para cima, para a face do Pai. Quem despreza uma criança está olhando na direção contrária à do anjo dela.
Como os Padres leram
São Basílio Magno, bispo de Cesareia no século IV, resumiu a fé da Igreja antiga numa frase que o Catecismo guardou: "Cada fiel tem a seu lado um anjo como protector e pastor para o guiar na vida" (São Basílio, Contra Eunômio 3, 1, citado no Catecismo, n. 336, edição portuguesa). Protetor e pastor: não um vigia que só observa, mas alguém que conduz. É a mesma palavra do Êxodo — um anjo que vai à frente.
Doutor e Catecismo
Santo Tomás de Aquino pergunta se cada homem é guardado por um anjo (Suma Teológica I, q. 113, a. 2) e começa por São Jerônimo, comentando justamente Mt 18,10: "Grande é a dignidade das almas, pois cada uma tem, desde o nascimento, um anjo designado para guardá-la" (tradução livre). E responde sem hesitar: cada homem tem um anjo da guarda. Mas é honesto sobre o que não é certo: quando esse cuidado começa — no nascimento ou no batismo — são, diz ele, "duas opiniões", e ele prefere a do nascimento (a. 5). Sobre o Evangelho de hoje, lembra com São Gregório que os anjos não deixam de contemplar a Deus enquanto nos servem (q. 112, a. 1).
O Catecismo põe cada coisa no seu grau. Que os anjos existem é "uma verdade de fé" (n. 328). Que eles nos acompanham ensina-o com todas as letras: "Desde o seu começo até à morte, a vida humana é acompanhada pela sua assistência e intercessão" (Catecismo, n. 336, edição portuguesa).
A memória do dia
Santos Anjos da Guarda
Por muito tempo, os anjos da guarda eram lembrados em 29 de setembro, junto com os arcanjos. A memória própria deles surgiu primeiro na Espanha, no século XV, espalhou-se por Portugal e pela Europa, e desde 1670, por decisão do Papa Clemente X, é celebrada em 2 de outubro. É uma das devoções mais simples da Igreja, aprendida no colo, e a oração que tantos rezaram na infância diz o essencial: "Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a Piedade divina, sempre me rege, me guarde, me governe, me ilumine, Amém!"
Reze hoje o "Santo Anjo do Senhor", devagar, como adulto — e, se puder, reze-o com uma criança. Depois pense em alguém que você olha de cima: um colega, um parente, alguém que você acha que não conta. O anjo dele está olhando para a face de Deus. Trate essa pessoa, hoje, de acordo com isso.
Fontes e verificação
- EscrituraMt 18,1.3.10; Ex 23,20.23; Sl 90(91),11: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (memória dos Santos Anjos da Guarda, leituras próprias, cor branca), conferido em 26/09/2026. Mt 18,6-9 não integra a leitura de hoje e entra como remissão, sem citação verbatim.
- MagistérioCIC 328 e 336: conferidos no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 26/09/2026; a frase de São Basílio no n. 336 é identificada pela nota 201 publicada na página (Adversus Eunomium 3, 1). Na citação do n. 336 foram omitidos os números das notas, sem alterar o texto. Bento XVI, Verbum Domini, n. 42, conferido no vatican.va em 26/09/2026.
- PatrísticaBasílio Magno, Adversus Eunomium 3, 1, conforme citado no CIC 336 (vatican.va), na tradução da edição portuguesa do Catecismo. A frase de São Jerônimo sobre Mt 18,10 é conhecida aqui pela citação de Santo Tomás (linha abaixo).
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 113, aa. 2 e 5 (sed contra e corpo), e q. 112, a. 1, resposta à 3ª objeção: newadvent.org (q. 113) e newadvent.org (q. 112); tradução livre do inglês. A frase de São Jerônimo é a do sed contra da q. 113, a. 2.
- Léxicokataphronéō: LSJ, s.v. καταφρονέω ("look down upon, think slightly of"; 2, "regard slightly, despise"), conferido no Perseus (LSJ integral) em 26/09/2026; texto grego de Mt 18,10 (μὴ καταφρονήσητε) conferido no SBLGNT.
- MemóriaVatican News, "SS. Anjos da Guarda", com o artigo integral ligado à página do dia (histórico da memória e texto da oração conforme o artigo). A afirmação do artigo de que a existência dos anjos foi definida "desde o Concílio de Nicéia" não foi reproduzida; o grau de certeza segue o CIC 328.
- ImagemSimone Cantarini, A guardian angel walking with a child, ca. 1640, água-forte. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 26.70.4(131) · CC0 — https://www.metmuseum.org/art/collection/search/341520 (licença conferida na API oficial do museu em 26/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem corte nem retoque).