A messe é grande
Leituras: Jó 19,21-27 · Sl 26(27) · Lc 10,1-12 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita."Lucas 10,2 — tradução da CNBB
O fio das leituras
As duas leituras são independentes, mas hoje falam de esperança em dois tons. Jó, no fundo do poço, pede piedade aos amigos — "a mão de Deus me feriu!" — e de repente diz a frase mais alta do livro: "Eu sei que o meu redentor está vivo". O salmo responde com a mesma certeza: "Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver na terra dos viventes". E no Evangelho Jesus manda setenta e dois discípulos anunciar que o Reino está perto. A esperança de Jó é pessoal; a dos discípulos é para os outros.
O texto por dentro
Lucas é o único evangelista que conta este segundo envio, maior que o dos Doze: "o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente". Parte dos manuscritos antigos diz "setenta"; por isso algumas Bíblias trazem um número e outras, o outro. A primeira coisa que Jesus manda fazer não é partir: é rezar. "Pedi ao dono da messe."
Depois vêm as instruções, e elas não são confortáveis. "Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos." Nada de bolsa, sacola ou sandálias, e "não cumprimenteis ninguém pelo caminho" — provavelmente não por falta de educação, mas pela pressa de quem leva um recado que não pode esperar. Ao entrar numa casa, a primeira palavra é "A paz esteja nesta casa!". Ficar onde se é recebido, comer o que se oferece, curar os doentes e dizer: "O Reino de Deus está próximo de vós".
E se não os receberem, sacodem a poeira e repetem a mesma notícia: o Reino está próximo, quer vocês queiram, quer não. O último versículo é o que assusta: "naquele dia, Sodoma será tratada com menos rigor do que essa cidade". Sodoma era, para qualquer judeu, a cidade pior de todas. A frase não é um mapa do inferno; diz que quanto mais luz se recebe, maior a responsabilidade de quem a recusa. O sentido é claro, e o juízo é de Deus, não do discípulo.
Sobre Jó há uma honestidade a fazer: o texto hebraico destes versículos é difícil, e as traduções divergem. Veja o bloco "Quando alguém pergunta", abaixo.
A palavra no original
É o verbo do primeiro versículo — "os enviou dois a dois" — e ele volta no terceiro: "Eis que vos envio". No grego comum, apostéllō é mandar alguém embora ou despachá-lo para longe; mas o dicionário registra o sentido que interessa aqui: enviar em missão, a serviço, como se envia um mensageiro ou um embaixador. Da mesma família vem a palavra "apóstolo": o enviado. Os setenta e dois não são apóstolos no sentido dos Doze, mas vivem o mesmo verbo. É o verbo de todo batizado.
Como os Padres leram
São Clemente de Roma, numa carta à Igreja de Corinto escrita ainda no século I — a data exata se discute —, quer mostrar que Deus ressuscita os que o servem, e reúne textos da Escritura. Entre eles, o de hoje: "Jó diz: ‘Ressuscitarás esta minha carne, que suportou todas estas coisas’" (tradução livre, Carta aos Coríntios, 26). É uma das leituras cristãs mais antigas que se conhecem de Jó 19: já no primeiro século, a comunidade de Roma ouvia neste texto a esperança da ressurreição.
Doutor e Catecismo
A doutora de hoje nunca saiu do Carmelo de Lisieux e é padroeira das missões. Santa Teresa do Menino Jesus escreveu, num dos seus cadernos, o que descobriu ao se perguntar qual era a sua vocação. O Catecismo guardou a passagem: "compreendi que a igreja tinha um coração, e que esse coração estava ardendo de amor. Compreendi que só o Amor fazia agir os membros da Igreja; que se o Amor se apagasse, os apóstolos já não anunciariam o Evangelho, os mártires recusar-se-iam a derramar o seu sangue..." (Catecismo, n. 826, edição portuguesa, citando o Manuscrito B, 3v).
É o comentário mais exato à ordem de Jesus: antes de mandar os setenta e dois, ele manda rezar. Teresa entendeu que o trabalhador da messe começa no coração da Igreja, e que ninguém é pequeno demais para estar lá.
Santo do dia
Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, virgem e doutora da Igreja
Nasceu em Alençon, na França, em 2 de janeiro de 1873, a última filha de Louis Martin e Zélie Guérin. Perdeu a mãe aos quatro anos. Quis entrar no Carmelo de Lisieux, onde já estavam duas irmãs, mas era jovem demais; numa peregrinação a Roma, em 20 de novembro de 1887, pediu pessoalmente a Leão XIII a permissão. Entrou no Carmelo em 9 de abril de 1888, aos quinze anos. Lá descobriu e ensinou às noviças a "pequena via" da infância espiritual: a santidade feita de pequenos atos de amor, oferecidos a Deus com confiança. Morreu de tuberculose na tarde de 30 de setembro de 1897, aos 24 anos. Foi canonizada por Pio XI em 17 de maio de 1925, proclamada em 1927 padroeira das missões, junto com São Francisco Xavier, e declarada Doutora da Igreja por João Paulo II em 19 de outubro de 1997.
Hoje, obedeça à primeira ordem do Evangelho, que é a mais esquecida: peça ao dono da messe que mande trabalhadores. Diga o nome de um seminarista, de um missionário ou de um jovem que você conhece e que Deus talvez esteja chamando. E ofereça por ele uma coisa pequena, do jeito de Teresa: um silêncio, uma paciência, um trabalho feito bem sem que ninguém veja.
Quando alguém pergunta
A objeção"Os cristãos leem em Jó a ressurreição e até Cristo, mas isso é leitura imposta de fora. O texto é obscuro, e Jó, em outras passagens, parece não esperar nada depois da morte. O mais provável é que ele espere ser defendido por alguém ainda nesta vida."Pergunta editorial, sem atribuição: formulação nossa da dúvida que o próprio debate exegético sobre Jó 19,25-27 levanta, e que aparece em comentários e em conversa.
A objeção tem razão em pontos importantes. O texto original destes versículos é difícil, e as traduções divergem: basta comparar a CNBB, "na minha carne, verei a Deus", com a forma que São Clemente cita, "ressuscitarás esta minha carne". E o livro de Jó, em outras falas, fala da morte como caminho sem volta. Quem diz que Jó descreve com clareza a ressurreição de Cristo está dizendo mais do que o texto diz.
Mas a conclusão não se segue. O Catecismo ensina que "a ressurreição dos mortos foi revelada progressivamente por Deus ao seu povo" (n. 992): a esperança cresce dentro do Antigo Testamento e se completa em Cristo. Jó está no caminho dessa esperança — um homem que, sem ver saída, afirma que o seu defensor está vivo e que ele mesmo verá a Deus. E a leitura cristã não é recente: Clemente de Roma já a fazia no século I. A Igreja lê a Escritura como um todo, e é legítimo ouvir numa página antiga um sentido que só a luz de Cristo deixa ver inteiro.
O que este argumento não prova: Jó 19,25-27 não demonstra, sozinho, a ressurreição da carne, nem que o autor do livro pensava em Cristo. A Igreja não definiu o sentido literal destes versículos. A fé na ressurreição se apoia na ressurreição de Jesus, e não neste texto; o que a leitura cristã de Jó mostra é a coerência da esperança ao longo da Escritura, não uma prova isolada.
Fontes e verificação
- EscrituraLc 10,1-12; Jó 19,21.25-26; Sl 26(27),13: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (memória de Santa Teresa do Menino Jesus, virgem e doutora da Igreja, cor branca, 26ª semana do Tempo Comum), conferido em 26/09/2026. A saudação de Lc 10,5 e a frase de Lc 10,9 aparecem na CNBB entre aspas simples; aqui, na abertura das falas, em aspas duplas. A variante "setenta / setenta e dois" em Lc 10,1 foi conferida no aparato do SBLGNT.
- MagistérioCIC 826 e 992: conferidos no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 26/09/2026. A passagem de Santa Teresa no n. 826 é identificada pela nota 303 publicada na página (Manuscrito B, 3v). As aspas angulares foram convertidas em aspas retas; a grafia "igreja", em minúscula, é a da edição.
- PatrísticaClemente de Roma, Carta aos Coríntios, cap. 26: texto integral em newadvent.org (ANF 9); tradução livre do inglês. A datação no século I, com a discussão entre o ano 70 e o 96, segundo o verbete "Pope St. Clement I" da Catholic Encyclopedia (newadvent.org), com a nota de atualização do próprio site.
- DoutorTeresa do Menino Jesus, Manuscrito B, 3v, conforme reproduzido no CIC 826 (vatican.va); a condição de doutora e padroeira das missões, pela carta apostólica Divini amoris scientia, de João Paulo II (1997).
- Léxicoapostéllō: LSJ, s.v. ἀποστέλλω ("send off or away from"; II, "dispatch, on some mission or service"), conferido no Perseus (LSJ integral) em 26/09/2026; formas de Lc 10,1 (ἀπέστειλεν) e 10,3 (ἀποστέλλω) conferidas no SBLGNT.
- SantoVatican News, "S. Teresa do Menino Jesus, virgem carmelita, doutora da Igreja, padroeira das Missões", e a carta apostólica Divini amoris scientia, n. 5 e seguintes (datas conforme a carta). O artigo da Vatican News dá a morte "em 3º de setembro de 1897"; a data correta, 30 de setembro, é a da carta apostólica.
- ImagemPieter Bruegel, o Velho, The Harvesters, 1565, óleo sobre madeira de carvalho. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 19.164 · CC0 — https://www.metmuseum.org/art/collection/search/435809 (licença conferida na API oficial do museu em 26/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem corte nem retoque).