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Meditação da Manhã

Um texto por dia sobre a liturgia do dia: o versículo que sustenta a leitura, uma palavra no original, um Padre da Igreja, um Doutor, um parágrafo do Catecismo e o santo que a Igreja lembra. Para ler depois da Missa, ou antes do café.

Semana de 27 de setembro a 3 de outubro de 2026
Quarta-feira, 30 de setembroMemória de São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja · 26ª semana

A mão no arado

Leituras: Jó 9,1-12.14-16 · Sl 87(88) · Lc 9,57-62 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

Água-forte em tons escuros: ao amanhecer, um lavrador curvado conduz o arado atrás de uma parelha de bois, no pé de uma colina; ao fundo, ciprestes altos e um céu de nuvens riscadas.
O lavrador de Palmer não olha para o céu nem para trás: olha o sulco. É a comparação de Jesus, desenhada por quem conhecia o campo.Samuel Palmer, The Early Ploughman, 1861, água-forte. The Cleveland Museum of Art, 1966.192 · CC0

A palavra do dia

"Quem põe a mão no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus."
Lucas 9,62 — tradução da CNBB

O fio das leituras

As duas leituras são independentes, e hoje uma prepara a outra. Jó, no meio da dor, reconhece que não tem como negociar com Deus: "como poderia o homem ser justo diante de Deus?" O salmo é o mais escuro do saltério: "Por que vós, ó Senhor, rejeitais a minh'alma?" E no Evangelho três pessoas tentam negociar com Jesus as condições do seguimento. Nos três casos, a resposta é a mesma: diante de Deus não se chega com contrato.

O texto por dentro

Pouco antes, Lucas conta que Jesus tomou a decisão de subir a Jerusalém, onde vai morrer. É no caminho que aparecem os três candidatos. O primeiro se oferece: "Eu te seguirei para onde quer que fores". Jesus não o recusa, mas avisa o preço: "o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça".

O segundo é chamado por Jesus — "Segue-me" — e pede um prazo: "Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai". A resposta é a frase mais dura do dia: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus". Para um judeu, enterrar o pai era dever sagrado. Os estudiosos discutem o que estava em jogo: se o pai tinha acabado de morrer, ou se o filho queria esperar até ele morrer, anos depois; a Igreja não definiu a questão. O que não está em discussão é o que a frase afirma: nada, nem o dever mais santo, passa à frente do chamado de Cristo. E o jogo de palavras é claro: há mortos que andam, e há quem enterre sem ter vida.

O terceiro quer "despedir-me dos meus familiares". Quem conhecia as Escrituras lembrava de Eliseu, chamado por Elias quando arava com os bois: Eliseu pediu para beijar o pai e a mãe, e Elias deixou (1Rs 19,19-21). Jesus pede mais do que Elias. E o último versículo fecha com a imagem do arado. Lucas não conta o que os três decidiram. A pergunta fica com o leitor.

Uma palavra sobre Jó: o que ele diz hoje — que Deus "derruba" as montanhas "em sua cólera" — é a voz de um homem ferido, não a conclusão do livro. O próprio livro vai responder, no fim.

A palavra no original

εὔθετοςeúthetos — bem colocado, adequado, pronto para o usode eu-, "bem", e títhēmi, "pôr, colocar"

A CNBB traduz "não está apto". A palavra grega não é moral, é prática: eúthetos é o que está bem posto, bem ajustado, pronto para servir — o dicionário a usa para uma peça que encaixa, para um lugar conveniente, e, aplicada a pessoas, para quem é adequado a uma tarefa; e cita justamente Lucas 9,62. Jesus não diz que quem olha para trás é mau. Diz que não serve para arar: quem olha para trás enquanto conduz o arado tira-o da linha. O Reino não pede heróis; pede quem mantenha os olhos no sulco.

Como os Padres leram

São Jerônimo, cuja memória é hoje, escreveu a um amigo, Heliodoro, que hesitava em deixar a família para seguir a vida monástica. A carta é dura, mas começa humana: "Não ignoro as amarras que podes alegar como impedimento. Meu peito não é de ferro, nem meu coração de pedra". E então retoma o Evangelho de hoje: pergunta se deve abandonar o serviço de Cristo por causa de um pai "a quem, se sou servo de Cristo, não devo os ritos da sepultura — embora, se sou verdadeiro servo de Cristo, eu os deva a todos" (tradução livre, Carta 14, 3). A segunda metade da frase é a que corrige a primeira: quem segue Cristo não deixa de enterrar os mortos. Passa a enterrá-los todos.

Doutor e Catecismo

Santo Tomás de Aquino cita essa mesma carta de Jerônimo e põe ordem no assunto (Suma Teológica II-II, q. 101, a. 4). O amor a Deus e o dever para com os pais são duas virtudes, e virtude não se opõe a virtude. O dever com os pais só cede quando nos afasta de Deus. E Tomás acrescenta o que Jerônimo, no calor da carta, não disse: se os pais precisam de nós e não têm outro amparo, "não devemos abandoná-los por causa da religião" (tradução livre). Ele registra ainda a leitura de São Cirilo: talvez o pai daquele discípulo nem tivesse morrido, e o pedido fosse esperar anos até o enterro.

O Catecismo diz o mesmo em linguagem de família: "São importantes, mas não absolutos, os laços familiares". E completa: os pais "hão-de convencer-se de que a primeira vocação do cristão é seguir Jesus" (Catecismo, n. 2232, edição portuguesa).

Santo do dia

São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja

Sofrônio Eusébio Jerônimo nasceu por volta de 347 em Estridão, na atual Croácia, e estudou em Roma, onde viveu uma juventude mundana antes de se converter e receber o Batismo. Passou anos como eremita no deserto de Cálcis, ao sul de Alepo, onde aprendeu o hebraico, e foi ordenado sacerdote em Antioquia, em 379. Em Roma, como secretário do Papa Dâmaso, recebeu o encargo de fazer uma nova tradução latina da Bíblia. Depois da morte do Papa, partiu para a Terra Santa e fixou-se em Belém, onde viveu até morrer, provavelmente em 420, dedicado à Escritura. A sua tradução, a Vulgata, revista, é ainda hoje o texto oficial da Igreja latina. O Concílio Vaticano II guardou uma frase dele, que o Catecismo repete: "a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo" (Catecismo, n. 133).

Descubra hoje qual é o seu "deixa-me primeiro": a condição que você põe antes de seguir Cristo por inteiro. Não a resolva com culpa; entregue-a numa oração curta, com o nome dela. E, na memória de São Jerônimo, abra os Evangelhos e leia devagar o texto do próximo domingo. Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo.

Fontes e verificação
  • EscrituraLc 9,57-62; Jó 9,2.5; Sl 87(88),15: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (memória de São Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja, cor branca, 26ª semana do Tempo Comum), conferido em 26/09/2026. Lc 9,51 e 1Rs 19,19-21 não integram a leitura de hoje e entram como remissão, sem citação verbatim.
  • MagistérioCIC 2232 e 133: conferidos no vatican.va, edição portuguesa oficial, nas páginas dos nn. 2196-2557 e dos nn. 50-141, em 26/09/2026. A frase do n. 133 é de Dei Verbum 25, que cita São Jerônimo (Comentário a Isaías, prólogo), conforme a nota 114 publicada na página. As aspas angulares foram convertidas em aspas retas.
  • PatrísticaJerônimo, Carta 14, a Heliodoro, § 3: texto integral em newadvent.org (NPNF II/6); tradução livre do inglês.
  • DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 101, a. 4, corpo e respostas às objeções 2 e 3: newadvent.org; tradução livre do inglês. A leitura de São Cirilo sobre Lc 9,59 é citada por Tomás na resposta à 2ª objeção.
  • Léxicoeúthetos: LSJ, s.v. εὔθετος ("well-arranged, conveniently placed"; 2, "of persons, well-adapted", com Lc 9,62 citado), conferido no Perseus (LSJ integral) em 26/09/2026; texto grego de Lc 9,62 no SBLGNT.
  • SantoVatican News, "S. Jerônimo, presbítero e doutor da Igreja", com o artigo integral ligado à página do dia (datas e fatos conforme o artigo).
  • ImagemSamuel Palmer, The Early Ploughman, 1861, água-forte. The Cleveland Museum of Art, 1966.192 · CC0 — https://www.clevelandart.org/art/1966.192 (licença CC0 conferida na API oficial do museu em 26/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem corte nem retoque).