O céu aberto
Leituras: Dn 7,9-10.13-14 ou Ap 12,7-12a · Sl 137(138) · Jo 1,47-51 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"Em verdade, em verdade, eu vos digo: Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem."João 1,51 — tradução da CNBB
O fio das leituras
Numa festa, as leituras são escolhidas pelo tema, e hoje o tema são os anjos — mas nenhuma delas os põe no centro. Daniel vê o trono do Ancião, onde "serviam-no milhares de milhares", e depois "um como filho de homem" que recebe o reino. O Apocalipse, na leitura alternativa, mostra Miguel e seus anjos lutando contra o Dragão, e a voz que proclama que "foi expulso o acusador dos nossos irmãos". O salmo responde: "Perante os vossos anjos vou cantar-vos, ó Senhor!" E o Evangelho termina com anjos subindo e descendo "sobre o Filho do Homem". Os anjos estão sempre em volta de alguém. Nunca são o centro.
O texto por dentro
A cena está no primeiro capítulo de João, nos dias em que Jesus reúne os primeiros discípulos. Filipe acabou de chamar Natanael, que torceu o nariz para Nazaré. Quando ele se aproxima, Jesus diz: "Aí vem um israelita de verdade, um homem sem falsidade". Natanael estranha — "De onde me conheces?" — e ouve uma resposta que o desmonta: "enquanto estavas debaixo da figueira, eu te vi". O Evangelho não conta o que acontecia debaixo da figueira; Natanael sabe, e isso basta para que ele confesse: "Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel".
Jesus responde que ele verá "coisas maiores", e a promessa final é uma citação disfarçada. Quem conhecia as Escrituras reconhecia o sonho de Jacó (Gn 28,12): uma escada apoiada na terra, cujo topo tocava o céu, e os anjos de Deus subindo e descendo por ela. Jacó acordou dizendo que aquele lugar era a porta do céu. Jesus diz que a escada, agora, é ele. O lugar onde o céu toca a terra deixou de ser uma pedra em Betel: é o Filho do Homem.
O texto duro de hoje está na leitura do Apocalipse: um Dragão, "chamado Diabo e Satanás, o sedutor do mundo inteiro", que acusava os irmãos "dia e noite diante do nosso Deus". A linguagem é de imagem, própria do Apocalipse, mas o que ela afirma não é imagem: a Igreja ensina que o demônio existe e age. E a mesma leitura diz como ele é vencido: "pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu próprio testemunho".
A palavra no original
No grego comum, ángelos é qualquer mensageiro: o que leva recado, o enviado de um rei. O dicionário registra que a Bíblia grega usou essa palavra para os anjos — e o primeiro exemplo que ele dá é justamente o sonho de Jacó, Gênesis 28,12. É a mesma palavra que Jesus usa hoje. Santo Agostinho explicou isso numa frase que o Catecismo guardou: "Anjo é nome de ofício, não de natureza. Desejas saber o nome da natureza? Espírito. Desejas saber o do ofício? Anjo" (Catecismo, n. 329, edição portuguesa). Miguel, Gabriel e Rafael são lembrados pelo que fizeram: enviados.
Como os Padres leram
Santo Agostinho pregou este Evangelho e parou na palavra "falsidade". Enganar, diz ele, é quando alguém esconde uma coisa no coração e diz outra: tem "como que dois corações". Mas Natanael não era sem pecado; o que Jesus elogia nele é que não fingia ser justo: "em Natanael louvou a confissão do pecado; não julgou que ele não fosse pecador" (tradução livre, Tratados sobre o Evangelho de João, 7, 18). E sobre os anjos da escada, Agostinho arrisca uma leitura espiritual, sem negar a literal: os anjos que sobem e descem sobre o Filho do Homem são também os bons pregadores, que sobem para contemplar e descem para ensinar (Tratados, 7, 23).
Doutor e Catecismo
Santo Tomás de Aquino pergunta se todos os anjos são enviados em missão (Suma Teológica I, q. 112, a. 2) e, para explicar o nome dos arcanjos, cita São Gregório Magno: "os que anunciam as coisas mais altas chamam-se arcanjos". E tira a consequência: "Por isso o arcanjo Gabriel foi enviado à Virgem Maria" (tradução livre). O arcanjo não é um anjo mais forte; é o que leva a notícia maior.
O Catecismo diz duas coisas que situam a festa. A primeira é o grau de certeza: "A existência dos seres espirituais, não-corporais, a que a Sagrada Escritura habitualmente chama anjos, é uma verdade de fé" (n. 328). A segunda é o lugar deles: "Cristo é o centro do mundo dos anjos (angélico). Estes pertencem-Lhe" (Catecismo, n. 331, edição portuguesa). É exatamente o que Jo 1,51 desenha: anjos em volta do Filho do Homem.
A festa e o santo
Santos Miguel, Gabriel e Rafael, Arcanjos
São os três anjos que a Escritura chama pelo nome. O nome de Miguel vem da expressão "Mi-ka-El", "quem é como Deus?": é o que luta contra o mal no livro de Daniel e no Apocalipse. Gabriel é o mensageiro por excelência: explica a Daniel as suas visões (Dn 8 e 9) e anuncia os nascimentos de João Batista e de Jesus (Lc 1); Pio XII o declarou, em 1951, padroeiro das telecomunicações. Rafael é o companheiro de viagem do jovem Tobias no livro que leva o nome dele, e, no fim, revela quem é: "Eu sou Rafael, um dos sete Anjos". Antes celebrados em datas diferentes, os três são festejados juntos neste dia desde a reforma do calendário que se seguiu ao Concílio Vaticano II. A oração a São Miguel, que se rezava no fim da Missa, caiu em desuso; João Paulo II, num Regina Coeli de 1994, pediu que não fosse esquecida.
Na Missa, antes do "Santo, Santo, Santo", o padre diz que cantamos com os anjos. Hoje, diga essas palavras sabendo o que está fazendo: a Igreja se junta aos anjos para adorar a Deus. E, se você ainda não sabe, aprenda a oração a São Miguel e reze-a hoje por alguém que está sendo acusado — "dia e noite" — pela própria consciência.
Quando alguém pergunta
A objeção"Paulo condena expressamente o culto dos anjos em Colossenses, e no Apocalipse o próprio anjo impede João de se prostrar diante dele. Rezar a São Miguel ou fazer festa para anjos é exatamente o que a Bíblia proíbe."Paráfrase fiel de objeção protestante corrente, construída sobre Cl 2,18 e Ap 22,8-9; circula em pregação e em material de apologética evangélica.
A objeção cita textos reais, e é preciso conceder o que eles dizem. Em Colossos havia um culto dos anjos que competia com Cristo, e Paulo o condena sem meias palavras. No Apocalipse, o anjo recusa a prostração de João e manda adorar só a Deus. A Igreja não discorda de nenhuma das duas coisas: o Catecismo ensina que a adoração é o primeiro ato da religião e repete a palavra de Jesus: "Ao Senhor teu Deus adorarás, só a Ele prestarás culto" (n. 2096).
A questão é o que a Igreja faz quando festeja um anjo. O Catecismo descreve com precisão: na liturgia, "a Igreja associa-se aos anjos para adorar a Deus três vezes santo; invoca a sua assistência" e "festeja de modo mais particular a memória de certos anjos" (n. 335). Adorar ao lado dos anjos e pedir a sua ajuda é o contrário de adorá-los. O próprio Evangelho de hoje mostra os anjos servindo "sobre o Filho do Homem": um culto que os tire desse lugar seria justamente o culto que Paulo condena.
O que este argumento não prova: a distinção entre adorar e pedir ajuda mostra que invocar um anjo não é, por definição, a idolatria de Colossos. Não prova que toda devoção aos anjos seja sadia — há exageros reais na piedade popular, e o critério de Cl 2,18 continua valendo contra eles. Também não substitui a razão de fundo pela qual a Igreja invoca anjos e santos, que é a comunhão de todo o povo de Deus em Cristo; isso se apoia na Tradição e não apenas nestes versículos.
Fontes e verificação
- EscrituraJo 1,47-51; Dn 7,10.13; Ap 12,9-11; Sl 137(138),1: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (festa dos Santos Miguel, Gabriel e Rafael, Arcanjos, cor branca), conferido em 26/09/2026. Gn 28,12-19, Jo 1,45-46, Dn 8-9, Lc 1, Tb 12, Cl 2,18 e Ap 22,8-9 não integram a leitura de hoje e entram como remissão, sem citação verbatim; a frase de Rafael vem do artigo da Vatican News.
- MagistérioCIC 328, 329, 331, 335 e 2096: conferidos no vatican.va, edição portuguesa oficial, nas páginas dos nn. 198-421 e dos nn. 2083-2195, em 26/09/2026. A frase de Santo Agostinho no n. 329 é atribuída pelo próprio parágrafo e pela nota 168 publicada na página (Enarratio in Psalmum 103). As aspas angulares foram convertidas em aspas retas.
- PatrísticaAgostinho de Hipona, Tratados sobre o Evangelho de João, Tratado 7, §§ 18 e 23: texto integral em newadvent.org (NPNF I/7); tradução livre do inglês.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica I, q. 112, a. 2, corpo: newadvent.org; tradução livre do inglês. A frase sobre os arcanjos é de São Gregório Magno (Homilia 34 sobre os Evangelhos), citada por Tomás.
- Léxicoángelos: LSJ, s.v. ἄγγελος ("messenger, envoy"; 3, "angel", com LXX Gn 28,12 como primeira referência), conferido no Perseus (LSJ integral) em 26/09/2026; texto grego de Jo 1,51 no SBLGNT.
- A festa e o santoVatican News, "São Miguel Arcanjo", "San Gabriel Arcanjo" e "San Rafael Arcanjo", com os artigos integrais ligados à página do dia (etimologia de Miguel, o breve de Pio XII de 1951, a unificação da festa e a menção ao Regina Coeli de 24/04/1994 conforme os artigos). O relato da visão de Leão XIII, que o artigo traz como testemunho, não foi reproduzido.
- ImagemJoseph Goupy, Jacob's Dream, c. 1720, guache. The Cleveland Museum of Art, 1970.362 · CC0 — https://www.clevelandart.org/art/1970.362 (licença CC0 conferida na API oficial do museu em 26/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem corte nem retoque).