Pílula Catequista
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Meditação da Manhã

Um texto por dia sobre a liturgia do dia: o versículo que sustenta a leitura, uma palavra no original, um Padre da Igreja, um Doutor, um parágrafo do Catecismo e o santo que a Igreja lembra. Para ler depois da Missa, ou antes do café.

Semana de 20 a 26 de setembro de 2026
Quinta-feira, 24 de setembro25ª semana do Tempo Comum · Ano par

A curiosidade de Herodes

Leituras: Ecl 1,2-11 · Sl 89(90) · Lc 9,7-9 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

Painel medieval em fundo de ouro: à direita, Herodes e convidados sentados a uma longa mesa posta; à esquerda, dentro de uma torre, o carrasco decapita João Batista.
Numa só tábua, o banquete e a masmorra: Baronzio pintou lado a lado a festa do rei e o crime de que ele se lembra no Evangelho de hoje.Giovanni Baronzio, The Feast of Herod and the Beheading of the Baptist, ca. 1330–35. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 1975.1.103 · CC0

A palavra do dia

"Eu mandei degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?"
Lucas 9,9 — tradução da CNBB

O fio das leituras

São leituras independentes, e hoje elas rimam. O Eclesiastes abre com a frase mais conhecida do livro — "Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade" — e descreve um mundo que gira sem sair do lugar: o sol se levanta e se deita, o vento vai e volta, os rios correm para o mar e o mar não transborda. No meio disso, um diagnóstico sobre nós: "A vista não se cansa de ver, nem o ouvido se farta de ouvir". No Evangelho, um homem com todo o poder do mundo faz exatamente isso: ouve falar de Jesus, fica inquieto e quer ver. E não se farta.

O texto por dentro

O trecho do Evangelho tem três versículos e é um retrato. Herodes Antipas, o tetrarca — filho de Herodes o Grande, governando a Galileia sob Roma — ouve falar de tudo o que está acontecendo. Corre boato de que João Batista ressuscitou, ou que Elias apareceu, ou que um dos antigos profetas voltou. Lucas diz que ele ficou perplexo.

Então vem a frase, e é das mais frias do Evangelho: "Eu mandei degolar João". Ele não diz "João foi morto". Assume a ordem, em primeira pessoa, sem uma vírgula de remorso — e usa esse fato como argumento para eliminar uma hipótese: se fui eu que mandei matar, então não pode ser ele. A pergunta que se segue, "Quem é esse homem?", é a pergunta certa. Só que feita pela razão errada.

O último versículo fecha assim: "E procurava ver Jesus". Lucas guarda essa linha e a retoma no fim do Evangelho, no julgamento da Paixão, quando Pilatos manda Jesus a Herodes: ali ele finalmente o vê, alegra-se muito, espera um sinal — e Jesus não lhe responde absolutamente nada. O desejo se realiza e não serve para nada, porque nunca foi desejo de conversão: era vontade de espetáculo.

Há um verso duro na primeira leitura, e ele é o último: "Não há memória do que aconteceu no passado, nem também haverá lembrança do que acontecer, entre aqueles que viverão depois". É o apagamento total, dito sem consolo. Convém dizer em que pé isso está. O Eclesiastes fala, ao longo do livro, a partir do que se enxerga "debaixo do sol", isto é, dentro dos limites desta vida. Os estudiosos discutem quanto o livro chega a afirmar sobre o depois, e a Igreja não definiu a questão. O que ela ensina é a regra de leitura: a Escritura se interpreta como um todo, e o Eclesiastes é lido dentro do mesmo cânon que termina na ressurreição.

A palavra no original

διηπόρειdiēpórei — estava completamente sem saída, perplexode diaporéō, "estar totalmente perdido, em dúvida ou dificuldade"

A CNBB traduz "ficou perplexo", e o grego é mais físico do que isso. Aporía, em grego, é a falta de passagem: o beco sem saída. Diaporéō é a forma reforçada — estar inteiramente sem por onde ir. Lucas usa o imperfeito, que indica algo contínuo: Herodes ficava sem saída, repetidamente. E aí está o retrato: o homem que mandou matar o profeta e que agora não encontra caminho nenhum dentro da própria cabeça. Ele tem exército, tem palácio e tem a chave da masmorra. O que ele não tem é saída.

Como os Padres leram

Santo Agostinho descreveu esse tipo de desejo com um nome próprio, nas Confissões. Além da busca do prazer, diz ele, há na alma "um certo apetite vão e curioso, encoberto sob o nome de conhecimento e saber, que não busca ter prazer na carne, mas fazer experiências por meio dela" (tradução livre, Confissões X, 35). E dá o exemplo que desmonta a desculpa: por que as pessoas correm para ver um cadáver despedaçado, que só lhes dá horror? Porque a curiosidade, ao contrário do prazer, procura justamente o que não é agradável — pela pura vontade de ver. É o apetite de Herodes, com nome e endereço.

Doutor e Catecismo

Santo Tomás de Aquino trata disso ao distinguir estudo de curiosidade (Suma Teológica II-II, q. 167, a. 1). Conhecer a verdade, diz ele, é em si mesmo um bem; o que pode estar torto é o desejo com que se busca esse conhecimento. Fica torto, por exemplo, quando alguém estuda "para se orgulhar do que sabe" (tradução livre). Não é o objeto que corrompe: é a direção. Herodes queria saber quem era Jesus do mesmo jeito que se quer saber o final de uma história — para ter sabido.

O Catecismo abre com a frase que corrige o Eclesiastes sem apagá-lo: "O desejo de Deus é um sentimento inscrito no coração do homem, porque o homem foi criado por Deus e para Deus". E completa: "Deus não cessa de atrair o homem para Si e só em Deus é que o homem encontra a verdade e a felicidade que procura sem descanso" (Catecismo, n. 27, edição portuguesa). Quem procura sem descanso é o mesmo que o Eclesiastes descreve — o olho que não se cansa de ver. A diferença é que aqui a inquietação tem destino.

Santo do dia

São Pacífico de San Severino, sacerdote franciscano

Carlos Antônio Divini nasceu em San Severino, nas Marcas, em 1653. Ficou órfão ainda jovem e entrou para os Frades Menores, recebendo o nome de frei Pacífico; dedicou à própria região um longo e apaixonado serviço apostólico. A saúde foi ficando cada vez mais frágil. Morreu em 1721 e foi canonizado em 1836. A Igreja lembra hoje também a beata Columba Gabriel: professora polonesa, tornou-se beneditina e abadessa em Lviv, deixou o mosteiro, passou por Subiaco e chegou a Roma, onde se dedicou aos pobres dos bairros romanos e fundou, em 1908, as Beneditinas da Caridade, para assistir às jovens operárias.

Repare quanto tempo você gastou esta semana querendo saber coisas que não mudariam nada em você — e compare com o tempo em que ficou diante do Senhor sem pedir sinal nenhum. Hoje, tire dez minutos e faça a pergunta de Herodes com a intenção que ele não teve: "Quem és tu?" Leia devagar um capítulo de um Evangelho e não procure novidade: procure a pessoa.

Fontes e verificação
  • EscrituraLc 9,7-9; Ecl 1,2.8.11: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (quinta-feira da 25ª semana do Tempo Comum, ano par), conferido em 19/09/2026. A cena de Herodes na Paixão (Lc 23,8-9) não integra a leitura de hoje e entra como remissão, conferida no texto grego do SBLGNT, sem citação verbatim.
  • MagistérioCIC 27: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 19/09/2026. A frase longa que o parágrafo cita remete a uma nota de rodapé que a edição portuguesa não publica; por isso ela não é aqui atribuída a nenhum documento, e não foi reproduzida. Aspas angulares convertidas em aspas retas.
  • PatrísticaAgostinho, Confissões X, 35, §§ 54-55: texto integral em newadvent.org (NPNF I/1); tradução livre do inglês.
  • DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 167, a. 1, corpo: newadvent.org; tradução livre do inglês.
  • Léxicodiaporéō: LSJ, s.v. δια^πορ-έω ("to be quite at a loss, to be in doubt or difficulty"), conferido no Perseus (LSJ integral) em 19/09/2026; forma verbal de Lc 9,7 conferida no SBLGNT (imperfeito de diaporéō).
  • SantoVatican News, "S. Pacífico de S. Severino, sacerdote franciscano" e "B. Columba Gabriel, abadessa" (datas e fatos conforme a página do dia).
  • ImagemGiovanni Baronzio, The Feast of Herod and the Beheading of the Baptist, ca. 1330–35, têmpera sobre madeira, fundo de ouro e prata. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, Robert Lehman Collection, 1975.1.103 · CC0 — https://www.metmuseum.org/art/collection/search/459045 (licença conferida na API oficial do museu em 19/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem corte nem retoque).