Enviados sem nada
Leituras: Pr 30,5-9 · Sl 118(119) · Lc 9,1-6 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"Não leveis nada para o caminho: nem cajado, nem sacola, nem pão, nem dinheiro, nem mesmo duas túnicas."Lucas 9,3 — tradução da CNBB
O fio das leituras
As duas leituras são independentes, mas hoje elas se encaixam de um modo raro. Agur, nos Provérbios, faz a Deus um pedido só: "não me dês pobreza nem riqueza, mas concede-me o pão que me é necessário" — e explica por quê: saciado, eu te renegaria; empobrecido, eu roubaria. É o pedido de quem conhece o próprio coração. No Evangelho, Jesus manda os Doze sem sequer esse pão. O que na primeira leitura é medida prudente torna-se, no Evangelho, despojamento de missão: eles vão sem nada porque vão levando outra coisa.
O texto por dentro
Lucas 9 abre o ciclo do envio. "Jesus convocou os Doze, deu-lhes poder e autoridade sobre todos os demônios e para curar doenças, enviou-os a proclamar o Reino de Deus e a curar os enfermos." A ordem das palavras importa: primeiro recebem, depois são mandados. Não é iniciativa deles.
Vem então a lista do que não se leva: cajado, sacola, pão, dinheiro, duas túnicas. Cada item tinha função prática — o cajado para a estrada e os cães, a sacola para a esmola, a segunda túnica para a noite fria. Tirar tudo isso é obrigar o enviado a depender de quem o receber. E há uma instrução de estabilidade: "Em qualquer casa onde entrardes, ficai aí" — nada de procurar hospedagem melhor depois.
A frase dura do dia é a seguinte: "Todos aqueles que não vos acolherem, ao sairdes daquela cidade, sacudi a poeira dos vossos pés, como protesto contra eles". Não é praga nem vingança. Era um gesto conhecido: o judeu que voltava de terra pagã sacudia a poeira para não trazer o que não era de Deus. Aqui o gesto diz que a recusa é real e tem consequência, e que o enviado não insiste, não força, não fica implorando. Ele deixa a liberdade do outro intacta e segue.
O último versículo é o resultado: "Os discípulos partiram e percorriam os povoados, anunciando a Boa-Nova e fazendo curas em todos os lugares". Deu certo — sem cajado, sem sacola, sem pão. Uma observação de honestidade: os detalhes da lista variam entre os Evangelhos. Marcos permite o cajado e as sandálias; Lucas não. Os estudiosos discutem como se explica a diferença, e a Igreja nunca definiu a questão: o que os três textos afirmam junto é o despojamento, não o inventário exato.
A palavra no original
Lucas usa duas palavras no versículo 1: dýnamis, que é força, capacidade de fazer, e exousía, que é outra coisa. Exousía nasce do verbo que significa "é permitido": é o poder que vem de fora, delegado, autorizado. Um soldado tem força; um magistrado tem autoridade. Jesus dá aos Doze as duas coisas, e a segunda explica por que eles podem ir sem nada: quem age por autorização de outro não precisa carregar a própria garantia. O dicionário registra também o lado sombrio da palavra — o abuso da autoridade, a arrogância de quem manda. É um aviso embutido no próprio vocábulo.
Como os Padres leram
São Cirilo de Alexandria comentou este texto e foi direto ao que a ordem significa: Jesus manda não levar nada "querendo que eles estivessem livres de todo cuidado mundano e tão inteiramente isentos dos trabalhos que as coisas do mundo ocasionam, que não dessem atenção nem mesmo ao alimento necessário e indispensável". E resume com uma frase que vale a memória de hoje: "a glória deles, e, por assim dizer, a coroa deles, é não possuir nada" (tradução livre, Comentário ao Evangelho de Lucas, Sermão 47).
Doutor e Catecismo
Santo Tomás de Aquino pergunta se a pobreza é exigida para a perfeição religiosa (Suma Teológica II-II, q. 186, a. 3) e responde com uma observação psicológica exata, que ele toma de Santo Agostinho: "estamos mais firmemente apegados às coisas terrenas quando as temos do que quando as desejamos" (tradução livre). Por isso a distinção que ele faz em seguida: uma coisa é não querer pegar o que não se tem; outra é soltar o que já está na mão. A primeira é recusa; a segunda é amputação. Os Doze são mandados fazer a segunda.
O Catecismo diz o que aconteceu naquela manhã: "Desde o princípio da sua vida pública, Jesus escolheu alguns homens, em número de doze, para andarem com Ele e participarem na sua missão. Deu-lhes parte na sua autoridade" — e cita exatamente o versículo de hoje: "e enviou-os a pregar o Reino de Deus e a fazer curas" (Catecismo, n. 551, edição portuguesa). A autoridade que eles têm não é deles: é participada. É por isso que a Igreja continua enviando.
Santo do dia
São Pio de Pietrelcina, presbítero
Nasceu numa família de camponeses e, desde criança, queria ser frade. Aos 16 anos entrou no noviciado dos Frades Menores Capuchinhos, em Morcone, tomando o nome de frei Pio; foi ordenado sacerdote em 1910. Seis anos depois chegou ao convento de Santa Maria das Graças, em San Giovanni Rotondo, onde passaria muitas horas do dia no confessionário — o ponto mais alto da sua atividade, dizia, era a celebração da Missa. Definia-se como "um pobre frade que reza", e da oração dizia: "é a melhor arma que temos; é a chave que abre o coração de Deus". Em 1948 confessou um jovem sacerdote polonês, Karol Wojtyła, que trinta anos depois seria João Paulo II. Carregou os estigmas e, com eles, provações que o Papa, na beatificação de 1999, chamou de humanamente talvez ainda mais torturantes. Em 1956 inaugurou a Casa Alívio do Sofrimento, obra hospitalar que chamava de "pupila dos meus olhos". Morreu na noite de 23 de setembro de 1968, aos 81 anos, e foi canonizado por João Paulo II em 16 de junho de 2002.
Faça hoje a lista do que você acha que precisa ter antes de poder falar de Deus a alguém: mais formação, mais tempo, mais respostas prontas, menos pecado no currículo. É a sacola que Jesus mandou deixar em casa. Escolha uma pessoa e diga uma frase verdadeira sobre a sua fé, hoje, sem esperar estar pronto — e reze por ela na Missa, como Padre Pio rezava por quem se ajoelhava no confessionário dele.
Fontes e verificação
- EscrituraLc 9,1-6; Pr 30,8-9: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (memória de São Pio de Pietrelcina, cor branca, 25ª semana do Tempo Comum), conferido em 19/09/2026. A comparação com a lista de Marcos foi feita no texto grego do SBLGNT e entra como remissão, sem citação verbatim.
- MagistérioCIC 551: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 19/09/2026. O parágrafo cita Lc 9,2 e Lc 22,29-30 na tradução da própria edição do Catecismo, não na da CNBB; as aspas angulares foram convertidas em aspas retas.
- PatrísticaCirilo de Alexandria, Comentário ao Evangelho de Lucas, Sermão 47 (sobre Lc 9,1-5): texto integral em tertullian.org (tradução de R. Payne Smith, 1859); tradução livre do inglês.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 186, a. 3, corpo: newadvent.org; tradução livre do inglês. A frase citada é de Santo Agostinho, reproduzida por Tomás no corpo do artigo.
- Léxicoexousía: LSJ, s.v. ἐξουσία ("power, authority to do a thing", de éxesti; sentido 2, "abuse of authority, licence, arrogance"), conferido no Perseus (LSJ integral) em 19/09/2026; texto grego de Lc 9,1 no SBLGNT.
- SantoVatican News, "S. Pio de Pietrelcina, presbítero", com o artigo integral ligado à página do dia (datas, falas atribuídas e a citação da homilia de 1999 conforme o artigo).
- ImagemAnônimo otoniano (Itália, Milão), Christ's Mission to the Apostles, c. 970–980, marfim. The Cleveland Museum of Art, 1967.65 · CC0 — https://www.clevelandart.org/art/1967.65 (licença CC0 conferida na API oficial do museu em 19/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem corte nem retoque).