Se Cristo não ressuscitou
Leituras: 1Cor 15,12-20 · Sl 16(17) · Lc 8,1-3 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram."1 Coríntios 15,20 — tradução da CNBB
O fio das leituras
As leituras são independentes. O Evangelho é curto e raro: Lucas conta que Jesus percorria cidades e povoados anunciando o Reino, com os Doze, "e também algumas mulheres": "Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam". É a única página dos Evangelhos que diz quem pagava as contas. E são essas mesmas mulheres que, mais adiante, estarão no sepulcro vazio. Aí as leituras se tocam: Paulo, hoje, defende que o sepulcro estava vazio mesmo, e que tudo depende disso.
O texto por dentro
Alguns em Corinto diziam que "não há ressurreição dos mortos". Provavelmente achavam a ideia de corpos ressuscitados uma grosseria; o grego educado preferia uma alma imortal. Paulo não negocia. Constrói um raciocínio em cadeia: se os mortos não ressuscitam, "então Cristo não ressuscitou"; "e se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vã e a vossa fé é vã também"; nós seríamos "testemunhas mentirosas de Deus"; "ainda estais nos vossos pecados"; os que morreram em Cristo "pereceram"; e a frase mais dura de todas: "Se é para esta vida que pusemos a nossa esperança em Cristo, nós somos, de todos os homens, os mais dignos de compaixão".
Vale parar nessa frase. Paulo não diz que o cristianismo é um jeito bom de viver mesmo que não seja verdade. Diz o contrário: se não é verdade, é a pior das ilusões, porque custou tudo. E só então vira a página: "Mas, na realidade, Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram." A fé cristã não é uma filosofia consoladora. É a afirmação de que um fato aconteceu, e de que, tendo acontecido com um, acontecerá com todos os que são dele.
A palavra no original
Em Israel, os primeiros frutos da colheita eram levados ao Templo antes que se pudesse colher o resto. As primícias eram pequenas, mas diziam duas coisas: que a colheita começou, e que o resto vem atrás. Paulo chama Cristo de aparchḗ "dos que morreram": ele é o primeiro a sair do sepulcro, e a sua ressurreição não é um caso isolado, é o começo de uma colheita. Não é uma imagem de consolo; é uma garantia. Quem viu a primeira espiga sabe que o campo está maduro.
Como os Padres leram
São João Crisóstomo comentou esta página numa homilia aos fiéis de Antioquia e resumiu Paulo numa frase: "perdemos tudo, diz ele, tudo acabou, se ele não ressuscitou". E explica o encadeamento: se depois da morte Cristo não pôde levantar-se, "nem o pecado foi desatado, nem a morte tirada, nem a maldição removida"; mais ainda, "a morte permanece imortal, se ele não ressuscitou". Depois nota o cuidado de Paulo em dizer "dos mortos" repetidas vezes, para que ninguém entendesse uma ressurreição só espiritual: "vês que o discurso era sobre corpos?" E sobre as primícias: "se primícias deles, então também eles devem necessariamente ressuscitar" (tradução livre da Homilia 39 sobre a Primeira aos Coríntios).
Doutor e Catecismo
Santo Tomás pergunta se era necessário que Cristo ressuscitasse (Suma Teológica III, q. 53, a. 1) e dá cinco razões; a segunda e a terceira são a leitura de hoje. Para instrução da nossa fé, porque a ressurreição confirma a divindade de Cristo, e Tomás cita 1Cor 15,14, "se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa pregação". E para levantar a nossa esperança, "porque, vendo Cristo, que é a nossa cabeça, ressuscitar, esperamos que também nós ressuscitaremos" (tradução livre), e aqui ele cita 1Cor 15,12, o primeiro versículo de hoje.
O Catecismo abre a seção sobre o sentido da ressurreição com o versículo de hoje: "Se Cristo não ressuscitou, então a nossa pregação é vã e também é vã a vossa fé"; e comenta: "A ressurreição constitui, antes de mais, a confirmação de tudo quanto Cristo em pessoa fez e ensinou. Todas as verdades, mesmo as mais inacessíveis ao espírito humano, encontram a sua justificação se, ressuscitando, Cristo deu a prova definitiva, que tinha prometido, da sua autoridade divina" (Catecismo, n. 651, edição portuguesa). A ressurreição de Jesus é dogma de fé, professado no Credo; a ressurreição dos nossos corpos, também.
Santo do dia
São José de Cupertino, sacerdote franciscano
Nasceu em 17 de junho de 1603, em Cupertino, na província de Lecce, numa estrebaria, porque a família tinha caído na miséria por uma dívida do pai. Uma doença o tirou da escola por cinco anos. Foi recusado pelos frades por pouca instrução e por êxtases em que deixava cair tudo das mãos; voltou aos conventuais da Grottella, estudou entre mil dificuldades e foi ordenado em 1628, depois de exames que a tradição conta como prodígios. Chamava-se a si mesmo "Irmão burro" e nunca abandonou os trabalhos mais simples, mas quem o ouvia falar de Deus reconhecia uma teologia madura. Os êxtases e levitações, sobretudo ao pronunciar os nomes de Jesus e Maria, o levaram à Inquisição de Nápoles; foi absolvido, mas o Santo Ofício o obrigou ao isolamento, de convento em convento, até Ósimo, onde encontrou paz em 1656 e morreu em 18 de setembro de 1663. Canonizado em 1767, é padroeiro dos estudantes em dificuldade e dos aviadores.
Paulo aposta tudo num fato. Hoje, faça uma pergunta honesta a si mesmo: eu vivo como quem acredita que isso aconteceu, ou como quem acha o cristianismo um bom conjunto de valores? A diferença aparece diante de um túmulo. Reze o Credo devagar, e pare em "ressuscitou ao terceiro dia" e em "creio na ressurreição da carne".
Fontes e verificação
- Escritura1Cor 15,12-15.17-20; Lc 8,1-3: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (sexta-feira da 24ª semana, ano par), conferido em 12/09/2026. Em 1Cor 15,19 a CNBB isola "de todos os homens" com travessões; aqui, com vírgulas.
- MagistérioCIC 651: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 12/09/2026; o parágrafo cita 1Cor 15,14 na tradução da própria edição; aspas angulares convertidas em retas.
- PatrísticaJoão Crisóstomo, Homilia 39 sobre a Primeira Carta aos Coríntios, §§3-5: texto integral em newadvent.org (NPNF I/12); tradução livre.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica III, q. 53, a. 1, corpo: newadvent.org; tradução livre (a citação de 1Cor 15,14 segue o texto da Suma).
- Léxicoaparchḗ: LSJ, s.v. ἀπαρχή ("beginning of a sacrifice"; "firstlings for sacrifice or offering, first-fruits"; "metaph., ἀ. τῶν κεκοιμημένων 1 Ep.Cor. 15.20"), conferido no Perseus (LSJ integral) em 12/09/2026; texto grego de 1Cor 15,20 no SBLGNT. BDAG como referência para o NT.
- SantoVatican News, "S. José de Cupertino", com o artigo integral ligado à página do dia (datas e fatos conforme o artigo: 1603, 1628, Ósimo 1656, 1663, canonização 1767).
- ImagemJohann König, The Resurrection of Christ, 1622, óleo sobre cobre. The Cleveland Museum of Art, 2017.192 · CC0 — https://clevelandart.org/art/2017.192 (licença conferida na API oficial do museu em 12/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem retoque).