Perdoou os dois
Leituras: 1Cor 15,1-11 · Sl 117(118) · Lc 7,36-50 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"Como não tivessem com que pagar, o homem perdoou os dois. Qual deles o amará mais?"Lucas 7,42 — tradução da CNBB
O fio das leituras
As leituras seguem caminhos próprios, mas hoje se encontram numa palavra: graça. Paulo relembra o núcleo do que pregou, "que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras; que foi sepultado; que, ao terceiro dia, ressuscitou", e a lista de quem o viu ressuscitado. E termina falando de si: "Por último, apareceu também a mim, como a um abortivo", o perseguidor da Igreja; "É pela graça de Deus que eu sou o que sou." No Evangelho, uma mulher "conhecida na cidade como pecadora" entra numa casa onde não foi convidada e chora nos pés de Jesus. Paulo e ela são a mesma história: quem recebeu muito perdão ama muito.
O texto por dentro
Um fariseu chamado Simão convida Jesus para comer. A mulher entra por trás, com um frasco de alabastro, e faz o que ninguém esperava: banha os pés de Jesus com lágrimas, enxuga com os cabelos, beija, unge. Simão pensa: "Se este homem fosse um profeta, saberia que tipo de mulher está tocando nele". Jesus responde ao pensamento com uma parábola minúscula: dois devedores, um de quinhentas moedas, outro de cinquenta; "como não tivessem com que pagar, o homem perdoou os dois. Qual deles o amará mais?" Simão acerta: o que foi perdoado de mais. E Jesus vira-se para a mulher, mas fala com Simão: "Estás vendo esta mulher?" Você não me deu água para os pés, nem beijo, nem óleo; ela deu tudo isso, e mais.
Então vem a frase que a Igreja discute há séculos: "os muitos pecados que ela cometeu estão perdoados porque ela mostrou muito amor. Aquele a quem se perdoa pouco mostra pouco amor". Ela amou porque foi perdoada, ou foi perdoada porque amou? A parábola diz o primeiro; a frase deixa as duas coisas juntas, e os estudiosos discutem até hoje como traduzir esse "porque"; a Igreja não o definiu. O que é claro é o resto: "Teus pecados estão perdoados"; os convidados se escandalizam, "Quem é este que até perdoa pecados?"; e o último versículo dá à mulher a palavra final: "Tua fé te salvou. Vai em paz!"
A palavra no original
Na parábola dos dois devedores, Lucas não usa o verbo comum para "perdoar" uma dívida. Usa charízomai, que quer dizer fazer um favor, dar alguma coisa gratuitamente, e só daí "perdoar". É o verbo da mesma família de cháris, graça, a palavra que Paulo usa hoje na primeira leitura: "É pela graça de Deus que eu sou o que sou." O credor não "cancela" a dívida como um banco: ele a dá de presente. Por isso a resposta certa não é pagamento, é amor.
Como os Padres leram
Santo Agostinho pregou um sermão inteiro sobre esta mulher e enfrentou a dificuldade: então quem pecou pouco vai amar pouco? Sua resposta: "Ó fariseu, tu amas pouco porque imaginas que pouco te foi perdoado; não porque pouco te tenha sido perdoado, mas porque julgas pequeno o que te foi perdoado." E vai mais longe: quem não cometeu muitos pecados deve a Deus o que Deus o impediu de fazer. "Não há pecado que um homem cometa que outro homem não possa cometer também, se faltar aquele que o guia" (tradução livre do Sermão 99).
Doutor e Catecismo
Santo Tomás usa exatamente Lucas 7,47 quando explica como Deus justifica o pecador (Suma Teológica I-II, q. 113, a. 4). A objeção diz: se a mulher foi perdoada "porque amou muito", então basta o amor, e não a fé. Tomás responde que "o primeiro voltar-se para Deus é pela fé"; mas "o movimento da fé não é perfeito se não for vivificado pela caridade", e por isso, na justificação, "um movimento de caridade é infundido junto com o movimento da fé" (tradução livre). Fé e amor não competem: na mulher de hoje, "tua fé te salvou" e "mostrou muito amor" são o mesmo instante.
O Catecismo, ao explicar o sacramento da penitência, começa por este Evangelho: "Só Deus perdoa os pecados. Jesus, porque é Filho de Deus, diz de Si próprio: ‘O Filho do Homem tem na terra o poder de perdoar os pecados’ e exerce este poder divino"; e a nota do parágrafo remete a Lucas 7,48, o "Teus pecados estão perdoados" de hoje. "Mais ainda: em virtude da sua autoridade divina, concede este poder aos homens para que o exerçam em seu nome" (Catecismo, n. 1441, edição portuguesa). O escândalo dos convidados continua no confessionário: é o mesmo perdão, dado de graça.
Santo do dia
São Roberto Belarmino, cardeal, bispo e doutor da Igreja
Nasceu em Montepulciano, na Toscana, em 4 de outubro de 1542, e entrou na Companhia de Jesus em 1560, contra a vontade do pai, que o queria político. Ensinou em Lovaina, foi ordenado em 1570 e em 1586 publicou as Controvérsias: parte das verdades negadas pelos protestantes e apresenta, para cada uma, os fundamentos bíblicos e patrísticos; a obra foi reimpressa vinte vezes em trinta anos. Foi diretor espiritual de São Luís Gonzaga, cardeal em 1599 (pedindo ao papa que não recebesse benefício nenhum pelo título) e arcebispo de Capua em 1602. Quase foi eleito papa em 1605 e fez de tudo para não ser. Coube-lhe também o caso Galileu, que a própria Vatican News descreve como uma incompreensão nascida de uma leitura rígida demais da Escritura. Morreu em 17 de setembro de 1621; beatificado em 1923, canonizado em 1930, doutor da Igreja em 1931. Ensinou que "para poder viver bem, é antes de tudo necessário morrer para o mundo antes de morrer no corpo" (tradução livre de A arte de morrer bem, conforme citado pela Vatican News).
Simão convidou Jesus e não lhe deu água para os pés; a mulher não foi convidada e lavou-os com lágrimas. Hoje, na oração, pergunte-se com qual dos dois você se parece, sem responder depressa. Se a resposta for "Simão", Agostinho tem um remédio: agradeça a Deus pelos pecados que você não cometeu. Se for "a mulher", vá em paz.
Fontes e verificação
- EscrituraLc 7,37.39.42.44.47-50; 1Cor 15,3-4.8.10: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (quinta-feira da 24ª semana, ano par), conferido em 12/09/2026. A cor branca do dia consta da mesma fonte, que não nomeia a memória; o santo, na Vatican News.
- MagistérioCIC 1441: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 12/09/2026; nota 34 = "Cf. Mc 2,7"; nota 35 = "Cf. Lc 7,48". A citação de Mc 2,10 dentro do parágrafo segue a tradução da própria edição; aspas internas convertidas em simples curvas.
- PatrísticaAgostinho, Sermão 99 (numeração beneditina; Sermão 49 sobre o Novo Testamento na NPNF), §§5-6: texto integral em newadvent.org (NPNF I/6); tradução livre. Obra autêntica.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica I-II, q. 113, a. 4, objeção 1, corpo e resposta à objeção 1: newadvent.org; tradução livre.
- Léxicocharízomai: LSJ, s.v. χαρίζω ("show favour or kindness, oblige, gratify"; "give graciously or cheerfully"; "forgive, 2 Ep.Cor. 12.13, cf. Ep.Col. 2.13"), conferido no Perseus (LSJ integral) em 12/09/2026; forma ἐχαρίσατο de Lc 7,42-43 no SBLGNT. BDAG como referência para o NT. O debate sobre a tradução do "porque" (ὅτι) de Lc 7,47 é registrado nos comentários críticos; a Igreja não o definiu.
- SantoVatican News, "S. Roberto Belarmino, cardeal, bispo e doutor da Igreja" (página do dia em português) e o artigo integral da edição italiana (datas e fatos conforme o artigo; a frase de A arte de morrer bem é citada tal como a Vatican News a transcreve, em tradução livre do italiano).
- ImagemMarcantonio Raimondi, Christ at the table of Simon the Pharisee, Mary Magdalene washing his feet with her hair, ca. 1520–25, gravura. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 17.50.41 · CC0 — https://www.metmuseum.org/art/collection/search/342538 (licença conferida na API oficial do museu em 12/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem retoque).