Setenta vezes sete
Leituras: Eclo 27,33-28,9 · Sl 102(103) · Rm 14,7-9 · Mt 18,21-35 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"Não devias tu também ter compaixão do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?"Mateus 18,33 — tradução da CNBB
O fio das leituras
Hoje as três leituras dizem a mesma coisa, cada uma no seu tom. O Eclesiástico, dois séculos antes de Cristo, já avisava: "O rancor e a raiva são coisas detestáveis", e dava a regra que Jesus vai levar ao extremo: "Perdoa a injustiça cometida por teu próximo: assim, quando orares, teus pecados serão perdoados." O salmo canta o Deus que "não fica sempre repetindo as suas queixas, nem guarda eternamente o seu rancor". Paulo lembra que "vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor", e quem pertence a alguém não é dono da própria vingança. E o Evangelho conta a parábola do servo que foi perdoado e não perdoou.
O texto por dentro
Estamos no capítulo 18 de Mateus, o discurso de Jesus sobre a vida da comunidade: a ovelha perdida, a correção fraterna que lemos domingo passado, e agora o perdão. Pedro faz uma pergunta que parece generosa: "quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?" Jesus responde "até setenta vezes sete", isto é, sempre. Não é um número para contar; é um número para desistir de contar.
Depois vem a parábola, e ela é construída sobre uma desproporção. O primeiro servo devia ao rei "uma enorme fortuna"; o segundo devia ao primeiro "apenas cem moedas". O rei "teve compaixão, soltou o empregado e perdoou-lhe a dívida"; o servo, saindo dali, agarra o companheiro pelo pescoço. E a parábola termina duro: o rei "mandou entregar aquele empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida", e Jesus conclui: "É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão".
Esse final assusta, e não se deve amaciá-lo. A parábola não diz que Deus perdoa com condições; diz que quem recusa perdoar se recoloca sozinho na posição de devedor. O perdão recebido e não transmitido não fica retido: escapa por entre os dedos. E a palavra decisiva é "de coração": não basta perdoar com a boca.
A palavra no original
A CNBB traduz "uma enorme fortuna", e faz bem, porque o número grego não foi feito para ser calculado. Mýrioi é, ao mesmo tempo, o maior número que o grego tinha nome para dizer, dez mil, e o adjetivo comum para "incontável", "infinito". E talento era a maior unidade de valor. Jesus juntou o maior número com a maior moeda: é uma dívida que nenhum servo, em nenhuma vida, pagaria. É esse o tamanho da diferença entre o que Deus nos perdoa e o que nos pedem para perdoar.
Como os Padres leram
São João Crisóstomo, que a Igreja lembraria hoje se não fosse domingo, pregou sobre esta página. Ele explica que "setenta vezes sete" não fixa um número, mas indica o que é "infinito, perpétuo e para sempre". E faz a conta da parábola do nosso lado: ainda que você perdoe o próximo setenta vezes sete, ainda que perdoe todos os pecados dele, o seu perdão está para a bondade de Deus "como uma gota de água para um mar sem fim" (tradução livre da Homilia 61 sobre Mateus).
Doutor e Catecismo
Santo Tomás pergunta se a misericórdia é a maior das virtudes (Suma Teológica II-II, q. 30, a. 4). Em si mesma, ele responde, a misericórdia é própria de quem está acima e socorre quem está abaixo, e por isso é atribuída a Deus de modo especial; no homem, que tem Deus acima de si, a caridade que o une a Deus é maior. Mas "de todas as virtudes que se referem ao próximo, a misericórdia é a maior" (tradução livre). É a resposta à pergunta do rei: quem recebeu misericórdia de cima deve a misericórdia a quem está ao lado.
O Catecismo comenta a parábola de hoje ao explicar o "perdoai-nos como nós perdoamos" do Pai-nosso. Diz que é "no fundo do coração" que "tudo se ata e desata", e reconhece o que todo mundo sabe: "Não está no nosso poder deixar de sentir e esquecer a ofensa; mas o coração que se entrega ao Espírito Santo muda a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão" (Catecismo, n. 2843, edição portuguesa). Perdoar não é deixar de sentir. É entregar o que se sente.
Santo do dia
São João Crisóstomo, bispo e doutor da Igreja (memória omitida pelo domingo)
Nasceu por volta de 349, em Antioquia. O apelido veio depois: "Crisóstomo" é "boca de ouro", pela capacidade de falar da fé. Passou seis anos como eremita, dois deles numa caverna, e como sacerdote em Antioquia ficou conhecido pelas homilias que explicavam a Escritura ao povo e cobravam o amor concreto aos pobres. Em 397 foi levado a Constantinopla como patriarca, e não mudou o estilo: combateu a corrupção do clero e da corte, removeu bispos indignos e se tornou incômodo demais. Um sínodo armado pelo patriarca de Alexandria e pela imperatriz Eudóxia o exilou em 403; o povo o trouxe de volta; em 404 uma nova condenação o afastou de vez. Morreu em 407, em Comana, no Ponto, a caminho de um exílio ainda mais distante.
Há uma dívida de cem moedas que você está cobrando com a mão no pescoço de alguém. Você sabe qual é. Hoje, antes da comunhão, quando disser "perdoai-nos como nós perdoamos", solte a mão. Se não conseguir soltar, peça a Deus que solte por você: é exatamente isso que o Catecismo chama de entregar o coração ao Espírito.
Fontes e verificação
- EscrituraMt 18,21-22.24.27-28.31.33-35; Eclo 27,33; 28,2; Sl 102(103),9; Rm 14,8: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (24º Domingo do Tempo Comum, Ano A), conferido em 12/09/2026. A mesma fonte registra que hoje se omite a memória de São João Crisóstomo.
- MagistérioCIC 2843: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 12/09/2026; notas 124 ("Cf. Jo 13,1") e 125 ("Cf. Mt 18,23-35"). A frase de Mt 18,35 que o parágrafo cita segue a tradução da própria edição do Catecismo, não a da CNBB.
- PatrísticaJoão Crisóstomo, Homilia 61 sobre Mateus, §§1 e 4: texto integral em newadvent.org (NPNF I/10); tradução livre.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 30, a. 4, corpo: newadvent.org; tradução livre.
- Léxicomýrios: LSJ, s.v. μυρίος ("numberless, countless, infinite"; como numeral, "ten thousand"), conferido no Perseus (LSJ integral) em 12/09/2026; texto grego de Mt 18,24 no SBLGNT. BDAG como referência para o NT.
- SantoVatican News, "S. João Crisóstomo, bispo e doutor da Igreja", com o artigo integral ligado à página do dia (datas e fatos conforme o artigo).
- ImagemJohn Everett Millais, The Unmerciful Servant (The Parables of Our Lord and Saviour Jesus Christ), 1864, gravura em madeira. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 21.68.4(6) · CC0 — https://www.metmuseum.org/art/collection/search/382271 (licença conferida na API oficial do museu em 12/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem retoque).