Pílula Catequista
iniciativa leiga, em comunhão com o Magistério

Meditação da Manhã

Um texto por dia sobre a liturgia do dia: o versículo que sustenta a leitura, uma palavra no original, um Padre da Igreja, um Doutor, um parágrafo do Catecismo e o santo que a Igreja lembra. Para ler depois da Missa, ou antes do café.

Semana de 06 a 12 de setembro de 2026
Quinta-feira, 10 de setembro23ª semana do Tempo Comum · Ano par

Misericordiosos como o Pai

Leituras: 1Cor 8,1b-7.11-13 · Sl 138(139) · Lc 6,27-38 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

Gravura em água-forte: o pai abraça o filho ajoelhado e maltrapilho na soleira da casa; figuras observam de uma janela.
O pai desce a escada e abraça antes de ouvir a desculpa. É o retrato de "sede misericordiosos como o vosso Pai".Rembrandt, Return of the Prodigal Son, 1620–69. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 33.79.12 · CC0

A palavra do dia

"Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso."
Lucas 6,36 — tradução da CNBB

O fio das leituras

Paulo abre a leitura com uma frase que caberia num cartaz: "o conhecimento incha, a caridade é que constrói." Ele fala de cristãos que sabiam que os ídolos não são nada e, com esse saber, feriam a consciência dos irmãos mais frágeis. Saber estava certo; amar estava faltando. Jesus, no Evangelho, dá a medida desse amor: amar quem não ama de volta, fazer o bem a quem odeia, emprestar sem esperar. As leituras não foram combinadas de propósito, mas o ponto de contato é evidente: o cristão não se mede pelo que sabe, e sim pelo quanto o amor dele vai além do que é razoável.

O texto por dentro

O trecho começa com "A vós que me escutais": é dito a quem já decidiu ouvir. Não é um programa para governos; é um modo de vida para discípulos. E é radical de propósito. Jesus repete três vezes a mesma pergunta: "que recompensa tereis?", se amais só quem vos ama, se fazeis o bem só a quem o faz, se emprestais só a quem devolve. "Até os pecadores fazem assim." A regra de ouro, "O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles", já existia em outras culturas. O que Jesus acrescenta é o que ninguém tinha dito: inclua os inimigos.

E dá o motivo, que não é "para ser bonzinho". É para ser filho: "sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus". A gente se parece com o pai quando faz o que o pai faz. O trecho fecha com a imagem da medida: a mesma que você usa para os outros será usada com você. Não como ameaça; como lei da vida.

A palavra no original

οἰκτίρμονεςoiktírmones — "misericordiosos", "compassivos"de oiktírmōn

No trecho paralelo de Mateus, Jesus diz "sede perfeitos como o vosso Pai é perfeito" (Mt 5,48). Lucas escolheu outra palavra: oiktírmōn, aquele que sente compaixão, que se comove. E não é uma palavra qualquer. É a que a Bíblia grega usa quando Deus se apresenta a Moisés no Sinai como Deus compassivo e misericordioso (Ex 34,6; em hebraico, rachum, palavra da mesma raiz de "útero"). Quando Jesus diz "sede misericordiosos como o Pai", está citando a definição que Deus deu de si mesmo. A perfeição que Lucas pede tem um nome: compaixão.

Como os Padres leram

Santo Agostinho, comentando o Sermão da Montanha, juntou as duas versões, a de Mateus e a de Lucas, numa só frase. A perfeição da misericórdia, diz ele, "não pode ir além do amor ao inimigo; e por isso as palavras finais são: sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito" (tradução livre, Sobre o Sermão do Senhor na Montanha, I, 21, 69). Ou seja: o "perfeito" de Mateus e o "misericordioso" de Lucas são a mesma coisa vista de dois lados, e o ponto mais alto dos dois é o mesmo: amar quem nos quer mal.

Doutor e Catecismo

Santo Tomás pergunta se a caridade exige amar os inimigos (Suma Teológica II-II, q. 25, a. 8) e responde com uma distinção que ajuda muito. Amar o inimigo enquanto inimigo, isto é, amar o mal que ele faz, seria perverso. Mas amar o inimigo enquanto pessoa, não o excluindo do amor que devemos a todos, isso a caridade exige. E ter um afeto especial por ele, procurá-lo, fazer-lhe o bem: isso é a perfeição da caridade. E acrescenta: quanto mais alguém ama a Deus, mais deixa de lado as inimizades, como quem ama muito um amigo e por isso ama até os filhos dele, mesmo que sejam hostis.

O Catecismo, ao falar da caridade, começa pela cruz: "Cristo morreu por amor de nós, sendo nós ainda ‘inimigos’". E tira a consequência: "O Senhor pede-nos que, como Ele, amemos até os nossos inimigos" (Catecismo, n. 1825, edição portuguesa). Amamos inimigos porque fomos amados quando éramos inimigos.

Santo do dia

São Nicolau de Tolentino, presbítero agostiniano

Nasceu em 1245 na região das Marcas, na Itália, na diocese de Fermo. Ainda adolescente conheceu os agostinianos e se apaixonou pela vida religiosa, à qual se consagrou em Tolentino, cidade cujo nome levou para sempre. Era um homem de longas orações e jejuns duros, e ao mesmo tempo, dizem as fontes, de "sorriso amável": penitência sem azedume, o que é raro. Morreu em 1305. Um bom santo para o dia em que Jesus pede que sejamos misericordiosos: dá para ser exigente consigo e manso com os outros.

Pense em uma pessoa concreta que você tem dificuldade de amar. Não precisa gostar dela hoje. Reze por ela hoje. É por aí que se começa a ser parecido com o Pai.

Fontes e verificação
  • EscrituraLc 6,27.35.36; 1Cor 8,1b: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (quinta-feira da 23ª semana, ano par), conferido em 06/09/2026. Mt 5,48 e Ex 34,6: referências, não citação literal da CNBB.
  • MagistérioCIC 1825: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026 (nota 77: Cf. Mt 5,44).
  • PatrísticaAgostinho, De sermone Domini in monte I, 21, 69: texto integral em newadvent.org (NPNF I/6); tradução livre.
  • DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 25, a. 8, corpo e resposta à 1ª objeção: newadvent.org; paráfrase.
  • Léxicooiktírmōn: LSJ (lsj.gr), s.v., que registra Ex 34,6 (Septuaginta) e Lc 6,36; equivalência com o hebraico rachum conforme Thayer, s.v.; BDAG como referência para o NT.
  • SantoVatican News, Santo do dia, 10/09.
  • ImagemRembrandt, Return of the Prodigal Son, 1620–69. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 33.79.12 · CC0 — https://www.metmuseum.org/art/collection/search/395882 (licença conferida na API oficial do museu em 06/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem retoque).