A mão que volta ao lugar
Leituras: 1Cor 5,1-8 · Sl 5 · Lc 6,6-11 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"Eu vos pergunto: O que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?"Lucas 6,9 — tradução da CNBB
O fio das leituras
Nos dias de semana, a primeira leitura e o Evangelho seguem caminhos separados: a Igreja vai lendo a Primeira Carta aos Coríntios em sequência, e o Evangelho de Lucas em sequência. Não há um tema combinado, e é honesto dizer isso. Mas hoje os dois textos se tocam num ponto: os dois falam de uma comunidade que precisa decidir o que é vida e o que é morte. Paulo pede que os coríntios tirem do meio deles um escândalo grave, e diz o porquê: "Lançai fora o fermento velho, para que sejais uma massa nova". Jesus, na sinagoga, pergunta se o sábado serve para salvar uma vida ou para deixá-la se perder. Nos dois casos, a pergunta de fundo é a mesma: a regra existe para a vida, ou a vida para a regra?
O texto por dentro
Lucas conta duas histórias seguidas sobre o sábado (Lc 6,1-11): as espigas colhidas no campo e, agora, a cura na sinagoga. O sábado era o dia sagrado do descanso, e os mestres discutiam seriamente o que podia e o que não podia ser feito nele. Curar um doente que não corre risco de morte, para muitos, podia esperar o dia seguinte. É esse o pano de fundo: os fariseus "observavam" Jesus, à espera de um motivo de acusação.
Só Lucas diz que era a mão direita, a mão do trabalho. E só Lucas, que a tradição chama de médico, descreve a cena com esse cuidado. Jesus não cura escondido: diz ao homem: "Levanta-te, e fica aqui no meio". Põe a miséria dele à vista de todos, não para expor, mas para que ninguém possa fingir que não viu. E então faz a pergunta que vira o jogo: em vez de discutir se pode curar, pergunta se é permitido fazer o bem. Ninguém responde. O homem estende a mão. "Ficou curada."
A palavra no original
A tradução diz "ficou curada", e está certa. Mas o verbo grego é mais preciso: apokathístēmi significa restabelecer, devolver ao estado de origem, recolocar no lugar. É a palavra que se usava para devolver uma propriedade ao dono, para restaurar um governo, para o soldado voltar à posição na fila. É também a palavra que a Bíblia grega usa para dizer que Elias virá restaurar todas as coisas (Mt 17,11). O que Jesus faz com aquela mão é o que ele veio fazer com tudo: não um remendo, mas uma restauração. Colocar de volta no lugar o que o mal tirou do lugar.
Como os Padres leram
São Cirilo de Alexandria, no século V, comentou este trecho num sermão sobre Lucas. Ele lê o gesto de pôr o homem no meio como um apelo à compaixão dos que vigiavam: a miséria daquele homem "talvez os envergonhasse e os persuadisse a apagar as chamas da inveja". E sobre a pergunta de Jesus, diz com lógica simples: se é permitido fazer o bem no sábado, "nada impede que os doentes sejam compadecidos por Deus"; e se não é permitido, então quem acusa Jesus está acusando a própria Lei (tradução livre do Sermão 23 sobre Lucas). Para Cirilo, o problema dos fariseus não era o sábado. Era a inveja.
Doutor e Catecismo
Santo Tomás, ao explicar o mandamento do sábado (Suma Teológica II-II, q. 122, a. 4), lembra para que serve o descanso: para que a pessoa fique livre para as coisas de Deus. E tira uma consequência que surpreende: pecar num dia santo vai mais contra o mandamento do que fazer um trabalho lícito, porque o pecado é o que de fato afasta de Deus. O descanso não é um fim em si; é espaço para Deus agir.
O Catecismo resume a atitude de Jesus assim: "Cheio de compaixão, Cristo autoriza-Se, em dia de sábado, a fazer o bem em vez do mal, a salvar uma vida antes que perdê-la" (Catecismo, n. 2173, edição portuguesa). E acrescenta que Jesus nunca violou a santidade do sábado: ele deu a interpretação verdadeira dele.
Santo do dia
Santa Regina, virgem e mártir
No Brasil, o 7 de setembro é feriado da Independência, mas a liturgia é a de dia comum. O calendário dos santos lembra Regina, uma jovem cristã de Alise, na Gália (hoje França), no século III. A tradição conta que era filha de um governador pagão chamado Olíbrio, que ficou órfã de mãe, converteu-se, e foi morta ainda muito jovem pelo próprio pai, que preferiu matá-la a ter uma filha cristã.
É preciso dizer com honestidade: sobre Regina sabemos pouco de seguro. O que temos vem da tradição, não de documentos da época. O que a Igreja guarda dela é o essencial: uma menina que não trocou a fé pela aprovação da família.
Existe alguma "mão seca" na sua vida, algo parado, atrofiado, que você esconde? Jesus pede que fique de pé, no meio, à vista dele. Não para expor. Para restaurar.
Fontes e verificação
- EscrituraLc 6,9-10; 1Cor 5,7: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (segunda-feira da 23ª semana, ano par), conferido em 06/09/2026.
- MagistérioCIC 2173: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026 (a nota 87 do parágrafo remete a Mc 3,4, paralelo de Lc 6,9).
- PatrísticaCirilo de Alexandria, Comentário sobre Lucas, Sermão 23: texto integral em tertullian.org (trad. R. Payne Smith, 1859, a partir do siríaco e de fragmentos gregos); citações em tradução livre do inglês.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 122, a. 4, resposta à 3ª objeção: newadvent.org; paráfrase.
- Léxicoapokathístēmi: LSJ e DGE (lsj.gr), s.v.; BDAG como referência para o NT.
- SantoVatican News, Santo do dia, 07/09. Datas e detalhes biográficos de Regina não têm fonte contemporânea; a página diz isso.
- ImagemRembrandt, The Hundred Guilder Print, 1648. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 29.107.35 · CC0 — https://www.metmuseum.org/art/collection/search/371732 (licença conferida na API oficial do museu em 06/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem retoque).