Ganhar o irmão
Leituras: Ez 33,7-9 · Sl 94(95) · Rm 13,8-10 · Mt 18,15-20 — texto completo na Liturgia Diária da CNBB

A palavra do dia
"Se o teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão."Mateus 18,15 — tradução da CNBB, a mesma da Missa
O fio das leituras
No domingo, a Igreja escolhe a primeira leitura para combinar com o Evangelho. Hoje a combinação é clara. Ezequiel ouve de Deus: "eu te estabeleci como vigia para a casa de Israel". O vigia que vê o perigo e fica calado responde pela morte do outro. Jesus, no Evangelho, diz a mesma coisa em linguagem de família: se o seu irmão errou, vá falar com ele. E Paulo, na segunda leitura, dá o motivo de tudo: "O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento perfeito da Lei." Corrigir não é o contrário de amar. É uma das formas do amor.
O texto por dentro
Estamos no capítulo 18 de Mateus, que os estudiosos chamam de "discurso sobre a comunidade". É um dos cinco grandes discursos de Jesus nesse Evangelho, e trata de como os discípulos devem viver juntos: os pequenos, a ovelha perdida, o perdão sem limite. Mateus escreve para uma comunidade de origem judaica, acostumada a regras claras de convivência. Por isso o texto tem cara de procedimento: primeiro a sós, depois com duas ou três testemunhas (isso vem da Lei de Moisés, Dt 19,15), depois a comunidade inteira.
Repare no que o texto não diz. Não diz que se deve denunciar, nem cobrar. Diz: vai corrigi-lo, em particular. O primeiro movimento é proteger o irmão da vergonha pública. E o objetivo declarado não é vencer a discussão: é "ganhar" o irmão. A palavra é de comércio, de quem recupera algo que estava perdido. Até a última medida, tratar alguém "como pagão ou pecador público", tem um detalhe: Jesus comia com pagãos e pecadores públicos. A porta nunca fecha de vez.
O trecho termina com a promessa que muita gente conhece de cor: "onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles". No contexto, isso é dito sobre a comunidade que corrige e perdoa. Cristo está no meio de uma comunidade que se trata com verdade.
A palavra no original
Em grego, o verbo que Jesus usa não significa "repreender" no sentido de dar bronca. Nos dicionários, elénchō é "examinar", "pôr à prova", "demonstrar", "trazer à luz". É a palavra do tribunal e da filosofia: Sócrates "elenchava" os interlocutores fazendo perguntas até que eles mesmos vissem o problema. A ideia é fazer o outro enxergar, não humilhá-lo. Quando a gente lê "corrigi-lo" com esse sentido, o versículo muda de tom: não é um dever de acusar, é um dever de iluminar.
Como os Padres leram
São João Crisóstomo, bispo de Constantinopla no fim do século IV, pregou sobre este trecho e usou uma imagem de médico. Quem foi ofendido, diz ele, é quem está saudável; quem ofendeu está doente, "embriagado" pela raiva ou pela vergonha. Por isso o saudável é que deve ir até o doente, "tornar o tribunal privado e o remédio fácil de aceitar". E conclui: tudo isso é feito "não por causa de um castigo justo, mas da emenda" (tradução livre da Homilia 60 sobre Mateus). Para Crisóstomo, as três etapas de Jesus não são três chances de condenar, mas três tentativas de curar.
Doutor e Catecismo
Santo Tomás de Aquino dedica uma questão inteira da Suma Teológica à correção fraterna (II-II, q. 33). Na primeira resposta ele pergunta se corrigir o irmão é um ato de caridade, e responde que sim: tirar o mal de alguém é procurar o bem dele, e procurar o bem de alguém é exatamente o que a caridade faz. Corrigir, quando é feito assim, é amar.
O Catecismo diz o mesmo em uma linha. Ao listar o que a caridade produz, escreve que ela "exige a prática do bem e a correcção fraterna" (Catecismo da Igreja Católica, n. 1829, na grafia da edição portuguesa). A correção não aparece como exceção ao amor; aparece como fruto dele.
Santo do dia
São Zacarias, profeta
Hoje é domingo, e o domingo tem precedência sobre qualquer memória de santo. Mas o calendário lembra Zacarias, um dos doze "profetas menores" (menores pelo tamanho do livro, não pela importância). Ele começou a pregar por volta de 520 a.C., quando o povo tinha voltado do exílio na Babilônia e precisava de coragem para reconstruir o Templo de Jerusalém. Suas visões e parábolas estão entre os textos do Antigo Testamento mais citados no Novo: o rei que entra em Jerusalém montado num jumento (Zc 9,9) e o olhar para aquele que foi traspassado (Zc 12,10) vêm dele.
Um profeta que animou gente cansada a reconstruir. Combina com um domingo sobre reconstruir relações.
Quem você está deixando de "ganhar" por medo de uma conversa difícil? Talvez a oração de hoje seja pedir a coragem de ir falar a sós, e a mansidão de ir como quem quer curar, não como quem quer ter razão.
Fontes e verificação
- EscrituraMt 18,15.20; Ez 33,7; Rm 13,10: verbatim da Liturgia Diária das Edições CNBB (23º Domingo TC, Ano A), conferido em 06/09/2026.
- MagistérioCIC 1829: conferido no vatican.va, edição portuguesa oficial, em 06/09/2026. A frase final do parágrafo é de Santo Agostinho (nota 83: In ep. Ioh. 10,4).
- PatrísticaJoão Crisóstomo, Homilia 60 sobre Mateus, §1-2: texto integral em newadvent.org (NPNF I/10, trad. Prevost/Riddle, 1888); citações em tradução livre do inglês.
- DoutorTomás de Aquino, Suma Teológica II-II, q. 33, a. 1, corpo: newadvent.org (trad. dos Dominicanos ingleses); paráfrase.
- Léxicoelénchō: LSJ (lsj.gr), s.v.; BDAG como referência para o uso no NT.
- SantoVatican News, Santo do dia, 06/09.
- ImagemRembrandt, Christ Preaching, called La Petite Tombe, ca. 1657. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, 29.107.18 · CC0 — https://www.metmuseum.org/art/collection/search/371733 (licença conferida na API oficial do museu em 06/09/2026; arquivo reduzido a ≤1600 px, sem retoque).